sexta-feira, 12 de março de 2010

Aguadeiros





Apresentação

Por Péricles Mendes


“Aguadeiros se intitulam todas as pessoas que convivem com o rio São Francisco e suas lendas, seja um barqueiro, pescador, lavadeira, todos que de alguma forma fluem, tocam, bebem e mergulham em suas águas correntes. Fazendo do rio um corpo anexo e mais que um correr de águas para o mar, é um corpo fluído, estendido entre o céu e a terra.”

Aguadeiros constitui-se num ensaio a procura de uma poética fotográfica que revele o contexto da navegação do baixo e médio São Francisco, enfatizando a movimentação cotidiana dos ribeirinhos e pescadores entre as paisagens margeadas pelo Velho Xico. A estética pesquisada não tem o caráter de registro sociológico, ainda que se evidenciem elementos.

A atividade fluvial e seus personagens protagonizam as imagens capturadas entre os limites de quatro estados e cidades: No baixo são Francisco, Penedo e Neópolis entre Alagoas e Sergipe; e no médio, Juazeiro e Petrolina entre Bahia e Pernambuco, durante duas viagens entre o período de dezembro de 2007 a agosto de 2009.




Aguadeiros do Velho Xico

por Alejandra Hernández Muñoz*


As imagens que se apresentam aqui resultam de um percurso relativamente informal, imprevisto e espontâneo do artista diante de uma realidade ambiguamente familiar e desconhecida. De início, a curiosidade do aventureiro adentrando o Sertão motiva o processo dos registros; um espírito romântico de descoberta da cultura fluvial do rio São Francisco incita o aprofundamento do olhar fotográfico.

Em termos de composição formal, os recursos empregados são tradicionais: “regra dos terços”, organizações axiais, recorrentes usos de diagonais, relações eqüitativas de luzes e sombras, cheios e vazios, horizontais e verticais, e o uso de pontos focais para a construção de profundidades. Nesse sentido, as séries de dragas e canoas são as mais instigantes como possibilidade de construção de espaço, principalmente nos casos de planos de água que, ambiguamente, constituem planos concretos de referência para a leitura de um limite ao tempo que, mediante a transparência, propõem uma perspectiva de continuidade de algo que acontece na superfície. Os closes em sapatos, chapas de aço e Reflexo na água, oferecem situações metafísicas e atemporais quase místicas. Diversas imagens de grupos de barcos e canoas dissecam uma geometria elementar que remete às rigorosas tabelas de proporções da construção naval, num sentido mais lúdico-criativo do que analítico-científico. Algumas imagens resgatam um sentido transcendental do homem e seu meio, apontando para o valor da simplicidade num sentido despojado de qualquer idealização.

O tratamento dos registros é relativamente purista, sem manipulações ou acréscimo de efeitos na obtenção dos resultados. Na captação, o artista usa um filtro polarizador para separar as cores e dar um alto contraste natural, pelo qual destaca alguns elementos como, por exemplo, as nuvens e a transparência das águas do rio, evidenciando as algas submersas. Em geral, as imagens são capturadas trabalhando a temperatura da cor no próprio equipamento, transgredindo propositalmente o balanço do branco; posteriormente, são editadas digitalmente apenas nos contrastes e saturação de cores.

Além de perscrutar o mar e as atividades humanas a ele vinculadas ou, de um modo mais abrangente, a relação do homem com a natureza, tema central dos ensaios de Aguadeiros, o artista busca promover reflexões sobre a teoria do dispositivo fotográfico.




Os registros têm tempos e espaços diferentes que, paradoxalmente, parecem ter sido anulados na seqüência das imagens. Por um lado, as fotografias, tomadas entre dezembro de 2007 e agosto de 2009, remetem menos ao tempo como dado de situação, horário da captura ou época do ano em que foi realizada a fotografia, e mais no sentido do tempo como longa duração, condição inexorável na paisagem, agente incansável sobre a matéria, protagonista perpétuo sobre a vontade transitória dos homens. Por outro lado, a dimensão espacial das locações também é subvertida. Os contextos geográficos do baixo e médio São Francisco são apresentados numa simbiose de imagens que remetem a uma lógica quase pontual, como se as margens de Penedo e Neópolis, entre Alagoas e Sergipe, e as de Juazeiro e Petrolina, entre Bahia e Pernambuco, não representassem fronteiras de uma realidade muito maior. Os locais sequer são nomeados nos títulos das peças, reforçando com isso qualquer tentativa de ilustrar situações particulares.

Como disse Susan Sontag, “sempre é a imagem que elegeu alguém; fotografar é enquadrar, e enquadrar é excluir”. Assim, longe de qualquer intenção descritiva ou exercício antropológico sobre as rotinas das comunidades ribeirinhas do São Francisco, os pequenos instantes são eternizados em detrimento de uma grande narrativa da saga dos pescadores e barqueiros do Velho Xico. Permeadas de uma reticente melancolia, as imagens espremem uma vontade de resgatar elementos que, além de sua possibilidade poética, são um pretexto para a reflexão sobre um cotidiano muitas vezes invisível e ausente na consciência dos grandes discursos.







Alejandra Hernández Muñoz, uruguaia, residente em Salvador desde 1992, é arquiteta, mestre em Desenho Urbano e doutoranda em Urbanismo pelo PPGAU/UFBA. Desde 2002, é Professora de História da Arte da EBA/UFBA; tem diversos trabalhos de história e crítica de arte e arquitetura; foi curadora das mostras Pasqualino Romano Magnavita - 1946-2006: 60 anos de desenho de cidades (Galeria Cañizares EBA/UFBA, abr.2006), Visões do Labirinto (Casarão da EBA/UFBA, nov.2007), EBA 130 anos - EBA Em Processos (Galeria ICBA, mar.2008) e Saccharum BA (MAM-BA, Museu Carlos Costa Pinto e Galeria ICBA, jun./jul.2009), todas realizadas em Salvador.



domingo, 13 de setembro de 2009


O projeto geração Bit chega a sua terceira edição de oficina de Videoclipe, além de convidar nomes de destaque da área audiovisual para paletras, entre eles, Raul Machado, Rodrigo Barreto, Ale Briganti, Ricardo Spencer, Tadeu Jungle. Abaixo algumas imagens still do clipe de da Banda Teclas pretas.














domingo, 23 de agosto de 2009

Efêmero




Efêmero.

Péricles Mendes

Categoria: Instalação fotográfica

Modelo: Joelma Felix

Objetivo

A instalação fotográfica aqui apresentada tem o intuito de dialogar imagem e tempo como princípio de realidade para o observador através da metalinguagem. O reflexo do espelho remete ao lúdico e simultaneamente ao conceito fotográfico do discurso da mimese, convidando o observador a fazer um jogo de reflexos da sua imagem em tempo real, instantaneamente, com o índice fotográfico da modelo, passado, presa em seu próprio tempo. Através do jogo de espelhos o observador pode “construir imagens”, pois as portas móveis permitem uma composição de reflexões, podendo inserir-se na imagem.

O objeto da instalação propõe por intermédio de imagens e reflexos que o observador busque simultaneamente a si mesmo e o significado da obra, como quem se olha no espelho cruzando a recepção sensível da instalação com a contemplação de si próprio. Na composição das fotografias a metalinguagem mostra espelhos dentro das fotos que são refletidas pelo mesmo espelho real, externo. Estão “dentro e fora” da obra, relacionando duas temporalidades: presente (reflexo no espelho do armário) e passado (fotografias da modelo).






Justificativa

A direção do ensaio fotográfico partiu da possibilidade de fazer uma analogia de imagens fotográficas cuja modelo admira-se defronte a um espelho, com cenas do romance de Oscar Wilder – O retrato de Dorian Gray – onde o personagem principal, o próprio Dorian Gray, surpreende-se ao vislumbrar o seu retrato pintado por Basil Hallward. Na instalação o ensaio fotográfico tenta reproduzir de forma pessoal, uma cena na qual a modelo pousa e busca em si um padrão de beleza, no seu ato narcisista. No ensaio o espelho representa para a modelo o que o quadro de Basil Hallward é para Dorian: “um retrato da sua alma”, beleza efêmera e transtorno psicológico.

A efemeridade da beleza é consumada todos os dias pelo indivíduo ao fitar-se trivialmente no espelho, idolatrando o ego a favor da superficialidade da beleza física. Olhar no espelho e não se ver. Afinal, não deveria o observador buscar sua beleza interior, algo pleno que somente pode ser sentido, invisível aos seus olhos e que não pode ser refletido no espelho? Porque não buscar essa plenitude diante das obras de arte já que esta, possibilita ao observador a “si ver”? Segundo Paulo Sérgio Duarte: Muitas vezes o papel da obra de arte é apontar algo que falta em mim mesmo. A obra não vai me preencher, mas apontar que não estou completo, pois sequer eu imaginava que essa experiência seria possível. Ou seja, não sou completo como pensava que era. Estou cheio de vazios e a obra está lá para mostrá-los.

A verdadeira beleza é um estado de espírito, o qual é tão variável que passamos a amar e odiar nossa fisionomia.

Os nossos sentidos estão num estado contínuo de vicissitudes: um dia não temos olhos, outro ouve-se mal; e dum dia pro outro vemos, sentimos, ouvimos diversamente. (...) Acidentalmente, juntam-se ao mais belo objeto idéias desagradáveis” ¹

É essa efemeridade de sentimentos que interfere na nossa recepção, reflexão e razão. Assim como nada se fixa ou demarca no espelho, sua superfície é efêmera, volúvel. Só através da fotografia o reflexo do espelho foi contido, fixado, deixando de ser passageiro e passando a ser uma representação perpetuada. O efêmero, presente no movimento do reflexo; contra, a fixidez perpetua do golpe do obturador.

Dimensões: (L x A x P) 78 x 50 x 11 cm.

Altura recomendada: 1,20 m